Análise
O legado da pandemia para o ambiente de negócios no Brasil
Autor:
Bernardo Zanardo Lisboa
Consilium Insper
Autor:
Vinícius Vellardi Janoti
Publicado:
27/7/2020 9:05
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pandemia impôs mudanças e desafios para todos, mas um ambiente, em especial, foi muito impactado: o ambiente de negócios. Com a delimitação da quarentena nos principais centros comerciais domésticos e mundiais, foi necessário que negócios se adequassem a modelos à distância, se possível, ocorrendo uma potente e ligeira adaptação ao ambiente virtual. Ainda assim, é inegável o impacto desfavorável, em termos de oferta e demanda, pelo qual as economias passaram, delineando um cenário de fragilidade no ambiente pós-pandemia.

Sabemos o que a pandemia tem causado, mas pouco se sabe sobre qual será, de fato, o legado dessa fase difícil e inesperada pela qual passamos. Apesar de a incerteza que predominou no cenário socioeconômico ter diminuído nos últimos dias, com sinais de reabertura do comércio em importantes centros econômicos brasileiros, essa ainda prevalece, sobretudo em razão das perspectivas de encolhimento econômico neste ano, dinâmica que não é exclusividade nacional.  A seguir, então, trataremos de tendências e perspectivas para o futuro do mercado.



Efeitos da recessão

O legado mais evidente é a recessão econômica, que começou no período de quarentena, mas que durará mais tempo que a pandemia. Segundo dados da Pesquisa Pulso Empresa do IBGE , quatro em cada dez empresas fecharam por não suportarem o impacto das medidas para conter o contágio do vírus; e dentre essas, cerca de metade pertencia ao setor de serviços. A produção nacional também foi impactada: economistas do mercado financeiro estimam retração de 6,5%  no PIB do país em 2020, com esse número ainda podendo ser revisado.

Após desabar, estima-se que a saída da recessão será lenta , em especial no Brasil, que entrou na crise atual se recuperando de outra recente. Antes mesmo da pandemia já contávamos com desemprego nos dois dígitos e 70 milhões de vulneráveis. A trajetória de retomada econômica iniciada em 2017 foi essencialmente revertida com o baque econômico da pandemia. Estimativa do banco Itaú aponta que a taxa real de desemprego possa beirar os 16%.

Apesar do quadro preocupante, segundo pesquisa da Deloitte com 1007 executivos de empresas e setores variados, a maioria das organizações (74%) acredita na recuperação entre 6 e 18 meses após o fim do confinamento e 65% indicam intenção de manter o quadro de funcionários.

O papel estatal

A crise é também um desafio para a formulação de políticas públicas e é consenso que o papel do Estado é fundamental para uma recuperação da crise, sendo um personagem essencial para a compreensão do desenho econômico do Brasil pós-pandemia.

O projeto mais evidente é o Renda Brasil , que foi levantado nas discussões sobre renda, por conta do auxílio emergencial aprovado no início da pandemia. O Renda Brasil é um projeto, ainda em desenho, que visa unificar programas sociais em uma só política de renda básica. Dessa forma, a ideia é que o auxílio emergencial gradativamente diminuirá e aterrissará no valor do Renda Brasil, que o governo estima ser entre 50 a 100 reais a mais que o benefício médio do Bolsa Família, hoje em torno de 200 reais.

Outro legado da pandemia na arena política será a discussão do financiamento do gasto governamental durante a crise. Programas como o auxílio emergencial e a renda Básica, para além de uma série de outros gastos emergenciais, sobretudo em escala municipal e estadual, irão exigir uma expansão dos gastos e do déficit público. Meio a isso, discussões sobre reforma tributária  vêm à tona e são incentivadas pelo ministro Paulo Guedes, que busca espaço no teto de gastos e crédito em entidades internacionais para pagar a onda de pedidos de seguro-desemprego. Nesse sentido, essas propostas, já projetadas pelo governo antes mesmo da crise, podem ser algumas das poucas reformas previamente delineadas, a serem discutidas no cenário da crise e no pós-crise.



Risco e investimento

Como colocado anteriormente, o contexto da pandemia vem se mostrando extremamente crítico para muitos empreendimentos, sobretudo de pequena e média escala de operação. Apesar da abertura de linhas de crédito, por vezes o risco associado aos negócios impediu-os de conseguir financiamento para sustentar a operação no cenário de crise, levando muitos à falência.

Olhando para o cenário mais macro, ainda, observa-se que o risco-país, segundo o IpeaData (que tem como fonte o JPMorgan), cresceu com o início da crise, com pontos de pico em momentos de agravamento da problemática interna, tendo o índice estabilizado mais recentemente, mas em um degrau superior ao seu nível usual. Um índice alto de Risco País é um indicador de precaução ao investimento, em escala interna e externa. A escala mundial da crise da Covid-19 já geraria, potencialmente, uma dinâmica de retração de investimentos internacionais diretos, mas o aprofundamento da crise interna intensifica essa realidade. A falta de Investimento Estrangeiro direto, assim, pode ser um fator que não contribua para o crescimento do ambiente de negócios, sobretudo no eixo industrial-produtivo.

Pensando em termos domésticos, observa-se um movimento do capital para investimentos diretos, muito em razão da queda da demanda doméstica e global; mas, ao que parece, esse capital encaminhou-se ao mercado financeiro, com uma inflação do preço de ações, mesmo em meio a uma potente crise econômica. Nesse ponto, a redução da taxa básica de juros (política utilizada internacionalmente para lidar com a crise), pode acabar não tendo os efeitos desejados, em termos de sustentação da atividade. Isso porque, ao invés de estimular o investimento direto, em razão do risco, os juros menores incentivam a evasão de capital da renda fixa e seu direcionamento ao ambiente de renda variável.

Por fim, é importante ressaltar que as mudanças virão e o legado da pandemia será impactante. Segundo informe produzido pela ONU e mais de 30 outras entidades, a crise já superou o impacto do colapso de 2008, do terrorismo de 2001 e do crash asiático em 1998. Apesar de ser possível reconhecer algumas tendências, parte do real legado da pandemia ainda é desconhecido. O fato é que haverá mudanças e que elas exigirão adaptação das empresas, no sentido de digitalização, alteração da dinâmica interna e resiliência ao prosseguimento da crise.

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Nota do editor:

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Covid-19
Inteligência Política

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