Análise
Como ficará o complexo industrial da saúde após a pandemia?
Autor:
Bernardo Zanardo Lisboa
Consilium Insper
Autor:
João Vitor Melo
Consilium Insper
Publicado:
3/6/2020
A

pandemia do coronavírus afundou diversos mercados, obrigou países a entrar em lockdown e colocou sistemas de saúde à prova. O vírus ainda se espalha na maioria dos países e a situação, sobretudo no Brasil, ainda está longe de estar sob controle e indica um futuro repleto de incertezas. Em meio a isso, já é possível pensar em mudanças forçadas nos hábitos sociais, nas relações de trabalho e no consumo, que apontam para possíveis movimentos do setor industrial da saúde, num momento pós-pandemia.

Nesse sentido, o choque provocado pela pandemia, meio ao qual a indústria de saúde é uma das poucas que ainda vê números sustentados em termos de desempenho, tende a gerar maior enfoque da indústria como um todo no setor de saúde. 

As exigências de distanciamento social e maior cuidado com a higiene, por exemplo, já motivaram uma série de grandes empresas a entrarem no setor de produção de máscaras, luvas e álcool gel. Em meio a uma crise de abastecimento da rede de saúde, o processo de transformação da indústria para atender uma demanda extraordinária pode ser visto como um respiro para o setor nesse momento de desaceleração da economia.  

Ademais, a contração produtivo-econômica delineou uma reconversão produtiva em nível global, que tende a ter reverberações mesmo após a resolução do problema sanitário, na medida em que há um aumento da relevância do mercado de bens de saúde.

O cenário também indica uma redução da dependência externa na indústria da saúde, de certo modo, um crescimento do protecionismo. Houve diversos atritos e o comércio internacional passa por um momento nebuloso. Além disso, a mudança na composição produtiva pode melhorar a balança comercial do setor e produzir melhores condições para o desenvolvimento de políticas de saúde pública. O Governo Federal tende a ser o maior indutor de políticas públicas nesse sentido. Nos Estados Unidos, por exemplo, o presidente Trump acionou, no final de Março, o Ato de Defesa de Produção para obrigar fabricantes, como a GM e a 3M, a fabricarem equipamentos e limitarem exportações.

Perante esse influxo de capital e atenção para o setor da saúde, mesmo em meio a uma histórica recessão, a tendência é de crescimento do investimento em pesquisa e desenvolvimento. 

A indústria mira novamente nas inovações. Isso representaria uma aceleração da tendência observada em grande parte do complexo industrial de saúde, e uma reversão na área de equipamento médico, em que se via há anos uma redução nos valores investidos em P&D. Inclusive, a demanda por equipamentos de diagnóstico e tratamento, diretamente associados à capacidade de reação dos sistemas de saúde a choques como o atual, está perante um óbvio horizonte positivo, dado que representantes e governos no mundo todo estarão pressionados a criar mais estruturas que impeçam uma nova pandemia. 

Na área dos fármacos, no entanto, a qualidade do gasto com inovação cresceu ano após ano, atingindo recentemente níveis europeus, segundo pesquisas do INEP, com base em dados que datam desde 2008.

No que se refere especificamente a essa indústria, a farmacêutica, movimentos desordenados de demanda por remédios vistos como possíveis vias de prevenção e tratamento ao coronavírus ocorreram e impactaram preços. 

Além disso, dados demonstram aumento considerável na busca por fármacos relacionados à gripe, o que pode ser atribuído ao tratamento comum da covid-19 e também ao generalizado comportamento hipocondríaco que se instaura em pandemias. Ainda assim, espera-se que a dinâmica global de inversão da pirâmide etária ainda seja um pivot mais relevante nos processos de desenvolvimento do setor farmacêutico. 

Por outro lado, as principais empresas da área vêm se envolvendo em uma intensa corrida pela obtenção da vacina, podendo-se ver um cenário futuro em que aquelas que conseguiram sair na frente com o lançamento comercial da vacina consigam estabelecer-se como protagonistas do cenário farmacêutico global, visto o imenso lucro potencial derivado de tal negócio.

Em relação ao setor hospitalar, o movimento de evasão devido ao risco de contaminação tende a inflar os investimentos na área de telemedicina, apenas recentemente legalizada em território brasileiro. Nesse sentido, o investimento em atendimentos primários pela via online deve reduzir custos de atendimento e locação, potencialmente elevando a acessibilidade a atendimentos médicos e reduzindo a problemática de inchaço das estruturas hospitalares (inclusive, havendo investimento nesse sentido, no setor público), para além de viabilizar menor erro de diagnóstico em prontos-socorros.

Com a pandemia de coronavírus, uma interligação na rede da produção de conhecimento mundial na área da saúde é esperada. A vacina é a produção mais simbólica disso: é de alta complexidade e exige colaboração de conhecimentos e descobertas globais. Isolar as descobertas e inovações para um ou outro país não será uma prática condizente com as necessidades globais na área da saúde. Quando for descoberta, a vacina deve afetar uma cadeia de suprimentos inteira e será indispensável a presença estratégica da indústria da saúde.

Em uma última análise, o horizonte da indústria é incerto. No entanto, é possível ver o surgimento, por conta da pandemia, de futuros eixos como: a saúde pública, aumento da demanda por remédios, o fenômeno que será a vacina e a adoção, e posteriormente popularização, da telemedicina.

*Bernardo Zanardo Lisboa

Aluno do 5º semestre de Economia no Insper

Diretor de Projetos do Consilium Insper


*João Vitor Melo

Aluno do 5º semestre de Economia no Insper

Vice-Presidente do Consilium Insper


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